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quarta-feira, 31 de março de 2010

Sobre o Trabalho de Campo

Dos trabalhos que li, tanto de Geografia quanto de Antropologia,  pude notar uma diferença bem significativa: O trabalho de campo. Pelo pouco que vi, creio que os Antropólogos estão muito à frente nesse quesito. Não só nisso, mas também na sua descrição. Eu sempre vi a preocupação que eles têm em descrever o trabalho de campo, descrever o objeto de estudo, descrever suas angústias e os problemas encontrados na tentativa de aproximação e etc... e eu sinto falta de ler isso na Geografia. Eu acho isso muito importante, porque, quantas vezes não sofremos ou não passamos por algum problema nos nossos trabalhos de campo, simplesmente porque não conhecemos a experiência dos outros? Sempre que lemos uma pesquisa pronta, não imaginamos o sufoco que a pessoa deve ter passado. Sempre achamos que o trabalho de campo e a coleta dos dados deve ter sido fácil ou sem problemas. Então, quando nos deparamos com algum problema, nos frustramos, achando que o problema é nosso e que não sabemos fazer campo. Pensando nisso, resolvi relatar meu trabalho de campo num blog. Fiz somente um, por enquanto, mas foi apenas o primeiro de muitos. Se alguém quiser acompanhar a minha experiência e as minhas angústias nestes campos, pode acessar o meu blog: blogoterrestre.blogspot.com. Abraços.

População vivendo em favelas no Mundo

Segundo os dados do Habitat, o Brasil possui a terceira maior população favelada do Mundo. Cerca de um quarto dos brasileiros vivem nestes assentamentos. Confira no gráfico abaixo publicado pela The Economist (http://www.economist.com/daily/news/displaystory.cfm?story_id=15766578&fsrc=nwl).

sábado, 6 de março de 2010

Caminhando com o Metrô

Prezados colegas,
como julgo sempre ser, as análises são pessoais. Esta, minha segunda neste espaço, está, digamos assim, mais compromissada com um questionamento livre, do que propor efetivamente alguma ação ou chegar a alguma resposta de natureza prática.

Eu poderia discutir dos terremotos nos últimos 40 dias que ocorreram em diversas partes do globo, mas acho que não iria diferenciar-se muito do que escrevi aqui antes (análise de 21/jan), já que os terremotos existem pelo menos há 3,5 bilhões de anos.

O título em si já é uma ironia. Eu poderia escrever "caminhando no metrô" ou ainda "caminhando pelo metrô" fazendo alusão a situações parecidas, por exemplo, como esperar a composição chegar. Afinal, caminhar dentro do metrô não é possível dada a sua lotação e seus intervalos de cansar qualquer forrest gump tupiniquim. Por sua vez, "caminhando com o metrô", na minha ótica sugere uma ironia ainda maior. Estamos todos caminhando, em uma visão positivista de progresso inexorável. Assim, eu e a empresa que administra o serviço, e você também (você, meu único leitor - parafraseando alguém que não me lembro!) estamos caminhando para o progresso...

... "Caminhando com o metrô" também nos fornece a idéia de lentidão, ou um eufemismo, "falta de rapidez". Falta tanta rapidez ao metrô que se um sujeito "em forma" apostar corrida com uma composição da Praça Onze que não existe até São Cristóvão eu acho que dá empate! Se for o U. Bolt, óbvio que a Jamaica ganha!

Mas de onde vem essa lentidão do metrô, tão aclamado antigamente? Eu usuário quase diário do trem e usuário do metrô em intervalos semanais (mas usuário diário antigo, de 1991 a 1997, na época da CPII Centro) digo que hoje em dia, está páreo duro para ver qual é o "melhor"! Se não houver colisão, e se o trem não viajar sem condutor, o trem coreano com ar condicionado siberiano é bem melhor do que o metrô. Sem ironia e o siberiano é um adjetivo elogioso da minha parte.

Mas a pauta é a lentidão. O intervalo maior e as estações lotadas é derivação da política estadual acerca da nova conexão (que liga diretamente, sem baldeação na estação Estácio, a zona norte a zona sul passando pelo centro). Afinal, a inauguração da conexão foi rápida, mas e a conclusão da obra? Ainda não terminou! É como jogar a copa de 2014 no maracanã sem os vestiários prontos.

Será que esta conexão é segura? Em que nível? Pelo que dizem opinões contrárias estamos então "caminhando com o metrô" e com os riscos. Na minha análise, com os riscos tecnológicos. Ou como dizem os franceses "risques technologiques majeurs" .

Adiciono a seguir um link para um video que mostra o professor McDowell da UFRJ levantando questionamentos (que foram utilizados pelo Ministério Público [MP]) importantes. A conexão nova tem fases operadas manualmente (é possível passando de ônibus nos viadutos que ligam a Av. Pres. Vargas até a Praça da Bandeira e vice-versa observar os funcionários do metrô diuturnamente ali, operando manualmente o sistema) e isto agrava as situações de riscos.

Videocasts - METRO



A Agetransp parece apenas ser uma figurante. Não sei se o MP vai engrossar mesmo com o metrô. Impossível é deixar de ir e vir. Submetemo-nos, assim, não somente ao risco tolerável, mas ao risco aceitável, em função da inevitabilidade do uso do sistema, por nossa parte.

Submetemo-nos às situações da política. A mesma que gera oportunidades e riscos.

Sobre a linha 3: um artigo AQUI em .pdf
Artigo Jornal: Fora de Controle
Artigo Jornal: Agetransp




Cleber Marques de Castro
http://sites.google.com/site/georiscos/

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Indústria se recupera no Brasil e no Mundo

Segundo gráfico divulgado pela revista The Economist, o Brasil apresenta uma forte recuperação industrial após a forte queda do setor em 2009. O acompanhamento deste indicador é uma preocupação recente entre aqueles preocupados com o modelo de desenvolvimento brasileiro que aponta sinais de dependência das compras chinesas para a manutenção de um balanço de pagamentos positivo. Além disso, há forte preocupação com a desindustrialização do país em virtude da entrada de produtos e serviços chineses a preços pouco competitivos para o empresariado nacional. O gráfico abaixo é uma boa notícia, contudo não afasta os receios em relação aos possíveis efeitos predatórios que a concorrência chinesa pode causar à indústria nacional.


quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Primeiro o Risco, Depois os Desastres: de Angra ao Haiti


O risco é uma característica inerente à sociedade. Tanto que para diversos autores que lidam com o tema em suas mais diversas variantes, só podemos falar de riscos quando existe alguém ou um grupo de pessoas (comunidade, classes sociais...) que pode perder algo, ter prejuízos, que está sob ameaça de algo (cf. Yvette Veyret; Franz Brüsek; Antoine Bailly, dentre outros). Desta maneira, os riscos antecedem os desastres. Estar em risco é estar sob ameaça, mas é apenas a concretização dos riscos no futuro que origina o que chamamos de desastres.
Os desastres de Ilha Grande e Angra dos Reis, os terremotos no Haiti e as enchentes em São Paulo, por exemplo, levam-nos a pensar nas condições de risco (vulnerabilidade), nas medidas preventivas e na capacidade de resposta institucional rápida e ágil, no momento em que ocorrem os acidentes.
Dados estes últimos acontecimentos, gostaria de trazer ao debate duas questões que julgo pertinentes:
a)      a noção de desastre natural;
b)      a discussão de evento e de processo

            Refletindo sobre o que via na televisão sobre os desastres, lembrei-me de um livro que li em 2008. “Enseigner les Risques Naturels: pour une geographie phisyque revisitée”, de um grupo de estudos francês chamado CHAM'S (Chamonix-Sérignan). Penso que todos devem ter passado por experiência similar: sabem quando encontramos naquele livro em que lemos conceitos ou mesmo idéias que já pensávamos há algum tempo, mas não tínhamos como escrevê-la? Segue um destes trechos que “me perturbava” há algum tempo, com minha tradução livre:

Os estudos acerca das representações espaciais nos lembram claramente que todos os fenômenos físicos se inscrevem em um contexto ideológico, histórico e constitui uma narrativa de uma dada época (...). É esse contexto que fornece um sentido e uma pertinência ao discurso científico. Fenômenos físicos não são somente naturais. As catástrofes ganham sentido (se revelam) quando elas atingem o homem ou seus bens (Bailly, 1994)[1].

Quando houve os movimentos de massa em Angra dos Reis e a imprensa logo começou a usar a expressão desastre natural veio-me a lembrança desta passagem do texto. Enquanto pensava em escrever algumas modestas linhas sobre Angra, ocorreu o terremoto no Haiti.
Se as catástrofes (ou os desastres) ganham sentido apenas quando atingem o homem, talvez fosse mais apropriado designarmos estes desastres de sociais, em vez de naturais. Digo isto, pois não julgo possível falarmos de um desastre natural sem vítimas humanas, sem perdas materiais ou imateriais para a sociedade.
Em muitos veículos de comunicação observamos o uso e a referência à “desastres naturais”, mas o que houve aqui no Rio de Janeiro ou no Haiti (podemos estender para as cidades do interior paulista e as enchentes regulares na grande capital deste estado) não pode ser um desastre natural. É a sociedade que perde e não a “natureza” (compreendida como oposto do que é produzido pela/por cultura). No mínimo, “desastre natural” pode servir aos leigos; no máximo pode servir a interesses em desviar a responsabilidade pelo erro e pelo prejuízo com os fenômenos naturais que sempre ocorreram.
Há um outro aspecto que gostaria de discutir. Os fenômenos naturais são tratados muitas vezes apenas como eventos. Contudo, são processos. Existe aqui uma diferença de fundo conceitual. Enquanto evento fornece uma noção de eventualidade, acontecimento simples e isolado; processo fornece uma idéia mais elaborada de sucessão de fenômenos em uma linha diacrônica. É um percurso, um caminho, em que a variável tempo não é o tempo histórico, e sim o tempo geológico.
Os movimentos de massa como os que infelizmente vimos não são eventos únicos, são processos acumulados no tempo. Não foram as chuvas daqueles dias que trouxeram o solo e a vegetação abaixo, mas todo o processo gemorfológico de intemperismo, de erosão, de infiltração, movimentação e armazenamento de água naquele tipo específico de solo ao longo de um tempo maior do que imaginamos. No caso específico de Ilha Grande (RJ), sem termos grande conhecimento daquele sítio e do que os moradores daquela enseada realmente fizeram em termos de adaptação e alteração das condições originais, é bem mais provável falarmos de um processo desencadeado por condições objetivamente geomorfológicas, pedológicas e hidrológicas. No entanto, o desastre em si existe em uma dimensão social, humana, e não “natural”. Afinal de contas, ninguém chama o processo de abertura do oceano Atlântico ou a formação da serras do sudeste do Brasil, por exemplo, de desastres naturais... Não existe desastre para a natureza, apenas, ajustes, processos, evolução (conceito que para mim, modestamente, também é de difícil compreensão a partir de uma ótica estritamente natural) de situações geológico-geomorfológicas.
No caso de Angra, no continente, existe um longo histórico de deslizamentos ou movimentos de massa tanto no município como na região da Costa Verde. Estes deslizamentos são desastres sociais anunciados. As condições climáticas e geológico-geomorfológicas digamos, “ideais” para deslizamentos (encostas íngremes, solos rasos, grande quantidade de chuvas) são agravadas pelo crescimento urbano nas encostas, “ordenado” ou “desordenado”; casas pobres ou mansões; pouco importa. Já sabemos de longa data como estas intervenções alteram as condições geomorfológicas das encostas. As aglomerações urbanas deste tipo são bombas-relógio.
Esse problema é, sobretudo, urbano. A legislação nacional, ainda que recente (Estatuto da Cidade), possui alguns instrumentos que podem ajudar a mitigar estes desastres. As legislações setoriais (água, saneamento, solo urbano) devem ser articuladas, ainda que dificuldades e limitações existam. Contudo, na maioria dos lugares onde estes processos ocorrem, a ocupação está consolidada. O esforço para solucionar os problemas relacionados às enchentes e aos movimentos de massa, no Brasil, requer força colossal, pois se resume, a meu ver, a planejar e gerenciar o crescimento que é “orgânico” e aquelas áreas já consolidadas.  Isto envolve diversos programas setoriais, como habitação, saneamento e emprego. Contudo, para mim,  uma das dificuldades está justamente na pouca articulação das políticas setoriais. A postura das autoridades governamentais e da inteligência técnica nacional deve ser pró-ativa e não reativa. Por isso reforçamos que as análises de riscos são prementes nestes casos.  
No colonial Haiti, a situação não é diferente no que tange a discussão do “desastre natural”. O processo terremoto é natural, mas o desastre é social. O diferencial é a junção de um processo endógeno que libera muita energia em pouco tempo em um local populoso e extremamente carente de toda a infra-estrutura mínima para níveis decentes de habitabilidade, quem dirá para o enfrentamento coletivo de um terremoto de nível sete na escala logarítmica de Richter. O cômico-se-não-fosse-trágico é o mundo das personalidades capitalistas doando quantias milionárias sabe-se lá para o gerenciamento de quem. Quem é o tesoureiro do Haiti agora? O Haiti não precisava desta ajuda antes? Até dívida será perdoada agora.
Não há certeza e soluções definitivas, mas um caminho concreto está nas posturas pró-ativas. As análises de risco sejam de qual tipo for, por mais que trabalhemos sempre no campo da incerteza (e no que tange a Geologia no Princípio do Atualismo), buscam capturar as condições que enfrentaremos no futuro. A análise de risco não se deve fazer onipotente e onisciente, nem alçar a técnica como a fonte de toda a segurança e certeza. Risco zero é uma ilusão fornecida pelas companhias de seguro. Entretanto ao se conhecer as variáveis sociais e/ou naturais e os elementos em risco e sua vulnerabilidade, então, os desastres podem ser transformados em possibilidades, ao invés de certezas de verão.

Cleber Marques de Castro


[1] Bailly, A. Enseigner les Risques Naturels (chapitre 9). In: CHAM’S. Enseigner Les Risques Naturels. Pour une Geographique Phisique Revisitée. Paris/Montpellier. Anthropos. GIP RECLUS. 1994.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Blog dos Pesquisadores da Unicamp no Haiti

Não deixem de entrar no blog dos pesquisadores da Unicamp no Haiti.
http://lacitadelle.wordpress.com/

A maioria das notícias e imagens do Haiti transmitidas na imprensa nacional mostra um país agachado apelando por uma benevolente ajuda humanitária internacional, um país em que o medo reina diante da "guerra de todos contra todos", em que fazem barricadas com corpos mortos - fruto da imaginação de um fotógrafo - e as pessoas se saqueiam umas às outras.
Ou seja, alguns ingredientes que se somam à vasta lista de preconceitos sobre o Haiti.
É significativo ler na capa da Veja sobre a tragédia "brasileira" no Haiti. A morte de 12 brasileiros é uma tragédia, mas se morreram 100 mil ou 200 mil haitianos é uma mera questão de estatística.
Os pesquisadores brasileiros que estão no Haiti não encontraram abrigo na embaixada brasileira, mas encontram portas abertas do povo haitiano - no sentido figurado, é claro, porque no sentido físico as portas já estão caídas. Parece que se depender das "autoridades" internacionais as primeiras edificações a serem reconstruídas no Haiti serão os muros.
Esse grupo de brasileiros, em sua maioria antropólogos, nos dá outra imagem sobre o que eles encontram nas ruas destruídas de Porto Príncipe: solidariedade do povo nas ruas e o canto das pessoas que preenchem com sons o vazio deixado pelos mortos.
Enquanto isso, como relata um haitiano num jornal da República Dominicana, “a ajuda internacional não se vê, não se come nem se bebe, só se escuta”.

Sobre o Projeto Haiti
http://www.cultura-economia.org/pesquisa2.html

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Análise de Conjuntura: Geografia do Esporte – Sávio Raeder

Caros(as) Amigos(as):

Uma das propostas do Blog é que ele se torne um espaço de troca de idéias acerca de nossos temas de pesquisa. É nesse sentido que inicio a reflexão sobre o meu tema de pesquisa: a Geografia do Esporte. Minha intenção é realizar análises de conjuntura sobre a relação entre práticas esportivas e processos espaciais com um enfoque nas políticas públicas empreendidas neste campo. Considerando meu interesse especial pelos megaeventos esportivos, minhas análises deverão ser direcionadas para as dinâmicas espaciais no contexto da formulação, execução e avaliação destes eventos.

Tenho a intenção de publicar essas análises de duas em duas semanas às sextas-feiras.

Espero que essa iniciativa inspire-os a também escreverem sobre seus temas de interesse e que essas análises possam contribuir para o desenvolvimento institucional do PPGG.

___________

Nesta primeira quinzena do ano a Copa das Nações Africanas, que estão ocorrendo em Angola, se destacou pela repercussão do ataque terrorista ocorrido em Cabinda. O ataque, ocorrido antes do início da Copa, foi promovido pelo por uma dissidência do grupo separatista Forças de Libertação do Estado de Cabinda (FLEC) contra o ônibus da delegação da seleção de Togo.

Este trágico evento lança luz sobre duas questões que envolvem o megaevento esportivo:

1) A visibilidade promovida pelos Jogos é utilizada tanto por governos como por grupos que buscam modificar as relações de dominação vigentes nos territórios que ocupam. Há eventos similares na história dos Jogos, destacando-se o ataque empreendido pelo grupo palestino Setembro Negro à delegação israelense nos Jogos Olímpicos (JO) de Munique em 1972. Por outro lado, se observa o esforço dos governos em se promover os Jogos como meio de projetar a imagem de uma potência, sendo os JO de Berlim 1936 e os de Pequim em 2008 exemplos dessa estratégia;

2) Como resposta à possíveis ataques, os países destinam cada vez mais recursos do orçamento dos Jogos para investimentos na área de segurança. São criados espaços de circulação restrita e outros passam por vigilância acirrada a título de se evitar o uso do megaevento como vitrine para grupos que, por meio da violência, buscam novas relações de dominação em seus territórios. Isso foi observado nos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro em 2007 que investiu aproximadamente meio bilhão de reais em segurança. Isso está em curso nos preparativos para os JO de Londres em 2012 com a adoção de novas tecnologias de segurança que possam evitar um possível ataque terrorista.




Em relação a outros eventos no exterior, cabe nota para dois fatos. O primeiro refere-se ao fato de que pode faltar neve para os JO de Inverno que ocorrerão em Vancouver (Canadá) no próximo mês. Não se trata exatamente de algo surpreendente em se tratando de uma das menos frias sedes já escolhidas para a edição de inverno dos JO. O segundo tem uma tênue relação com primeiro, mas destaca-se por outra razão. Trata-se da candidatura de Barcelona aos JO de Inverno de 2022. Barcelona é famosa por ter sediado em 1992 os JO de verão promovendo uma grande reestruturação urbana, fato que inspirou muitas administrações a buscarem os Jogos como estratégia de revitalização de suas cidades (o Rio de Janeiro é o exemplo mais evidente de sua influência na América Latina). A estratégia de Barcelona pode estar relacionada com a necessidade de atualização de sua imagem no cenário internacional. Além de Barcelona, Munique também se apresenta como uma candidata aos JO de Inverno, porém para os de 2018, tendo sido antes sede de uma edição de verão (1972). É possível que em tempos de aquecimento global estas cidades encontrem dificuldade climáticas para realizar estes eventos, ainda que os eventos que exijam neve sejam realizados em cidades próximas.

Outro tema relevante desta quinzena foi o anúncio dos investimentos públicos para os preparativos da Copa de 2014. Foram anunciados cerca de R$ 20 bilhões, sendo boa parte destinada às obras de infraestrutura das 12 cidades sedes. O montante se divide da seguinte forma, segundo o anunciado até agora:
R$ 11,2 para mobilidade urbana (sendo R$ 7,6 bi da União e o restante dos Estados e Municípios)
R$ 4,8 bi para estádios (via empréstimos do BNDES)
R$ 2,5 bi para ampliação de aeroportos
R$ 1 bi para ampliação da rede hoteleira
R$ 700 milhões para reforma de terminais turísticos em portos

As sedes da Copa do Mundo em 2014 serão: Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Cuiabá, Curitiba, Porto Alegre, Salvador, Fortaleza, Manaus, Natal e Recife.

Se cumprido o planejamento de investimentos anunciado, as cidades sedes da Copa receberão um aporte considerável de recursos para qualificarem suas estruturas urbanas. Além disso, tais investimentos devem ser realizados em prazos bem definidos a fim de que as estruturas estejam finalizadas até a realização do evento. Se por um lado passou ao largo dos agentes decisores a preocupação com a organização do futebol nas cidades escolhidas, por outro percebe-se que foram selecionados os principais centros urbanos do país. Ou seja, se por um lado os estádios construídos ou reformados correm o risco de se tornarem obsoletos após a Copa, por outro os investimentos em infraestrutura podem beneficiar justamente áreas com maiores demandas por modernização de seu território.

Quanto ao Rio de Janeiro, verifica-se que algumas políticas estão sendo orientadas tendo como marco o ano de 2016 para a sua implantação. O decreto do Governados Sérgio Cabral determinando que todos os ônibus intermunicipais tenham ar condicionado até 2016 é uma delas. Já no campo da formação de uma agenda de políticas públicas, o IPEA lançou um estudo apontando para a possibilidade de o Brasil erradicar a pobreza extrema em 2016. Por outro lado, uma polêmica envolvendo a liberação do gabarito para a construção de um prédio da Eletrobrás de 44 andares nas proximidades dos Arcos da Lapa coloca em questão a priorização da revitalização da área portuária. Anunciado como um legado dos JO de 2016, o projeto Porto Maravilha poderia receber um impulso com a construção deste prédio na zona portuária. A polêmica com a descaracterização do patrimônio seria evitada e o discurso da recuperação portuária poderia avançar concretamente.